por Rodrygo Cezar de Araújo Santos

Nos últimos anos os gastos orçamentais da União com ensino superior vem aumentando gradativamente, saindo dos R$8,8 bilhões em 2001 e ultrapassando os R$12 bilhões no ano de 2005. Este gasto será quase o dobro do liberado para o Bolsa Família e outros programas assistencialistas, que cobrirão cerca de R$6,5 bilhões. Com a Universidade Federal do ABC não é diferente. Com um investimento que ultrapassa os R$120 milhões em construções, 110 Docentes Doutores, uma estimativa de 15 mil estudantes até 2011, custando cada um, cerca de R$20 mil anuais e um supercomputador de R$2 milhões, custará aos cofres públicos um orçamento anual de mais de R$73 milhões.

Estações de Trabalho para Estudantes de Pós-Graduação - Bloco B - UFABC
Este investimento em ensino superior de qualidade e pesquisa é um passo gigante para o país , uma vez que, obtenção e produção de conhecimento, neste mundo globalizado, se torna cada dia mais imprescindível para países que aspiram uma condição de igualdade com outras civilizações. Vale frisar que este investimento vem dos cofres públicos, ou seja, dinheiro arrecadado principalmente de impostos pagos por trabalhadores que, infelizmente, poderão não usufruir de tal oportunidade, pois terão de pagar aos seus filhos ou para si mesmos por ensino superior, ou pior, nunca o farão. O único retorno que poderão ter é a melhoria de vida proporcionada pelas pesquisas subsidiadas por estas instituições. Mas na pratica este fato se torna contraditório, uma vez que, são poucos os alunos de universidades públicas que se dedicam à pesquisa após sua formação. A realidade mostra que, em sua grande maioria, os formandos se empregam no setor privado, por ter mair retorno lucrativo como, por exemplo, engenheiros trabalhando em bancos, e muitas vezes nem no próprio país ficam.

Laboratório Típico - Bloco B - UFABC
Até onde este investimento está sendo rentável para o país e seu povo? Qual é a real dívida que as instituições públicas de ensino superior e seus formandos tem com a sociedade? Será apenas na área de pesquisa que demorarão anos para atingir o público? Ou quem sabe criar “mão-de-obra qualificada” para empresas privadas lucrarem e remeterem este lucro para seu país de origem? O Brasil não necessita apenas de investimento na área da graduação, mas, principalmente, do retorno que este investimento oferece.
Esse fato ocorre, também, pela falta de formação moral dos formandos. Um artigo da Ciência & Saúde Coletiva mostra que o desenvolvimento moral de formandos de um curso de odontologia foi analisado a partir de um modelo construtivista. Foi apresentado aos alunos um dilema de fundo moral a ser resolvido. Por meio de entrevistas, estabeleceu-se a qualificação dos alunos em um dos cinco níveis de desenvolvimento moral. Os resultados mostram que:
- 66% dos formandos estão nos dois primeiros estágios de desenvolvimento moral, onde não há capacidade de relativizar situações e dilemas morais, ou estes são resolvidos na lógica de interesse pessoal;
- o reconhecimento de que normas e valores morais podem ser relativizados e devem ser orientados para o bem comum foi atingido por menos de 10% dos entrevistados;
- os valores de lei prevaleceram aos de vida para a maioria;
- o conjunto de valores que orientou a escolha do dilema foi majoritariamente definido pela busca de recompensa e a preocupação com a própria reputação.
Foram discutidas as potenciais conseqüências deste perfil de desenvolvimento moral sobre a odontologia, as relações éticas do cotidiano da prática profissional, e a incapacidade dos cursos em resolver este problema, considerado fundamental para uma reorientação do perfil de recursos humanos necessário ao País: o de um dentista com boa capacidade técnica e responsabilidade social. E segundo Habermas [1], a adolescência é caracterizada pelo súbito abandono do estágio convencional, no qual as regras estão ancoradas em julgamentos de validade assentida de forma automática e irrefletida, para uma fase na qual a própria substância da realidade precisa ser reconstruída, em um difícil processo de doação de novos significados às próprias ações e às dos outros. “De um só golpe, o mundo social das relações interpessoais legitimamente reguladas – mundo esse ingenuamente habitualizado e reconhecido sem problemas – se vê desenraizado e despido de sua validade nativa”. No momento em que o adolescente percebe como vazias de sentido autêntico as regras que alimentavam suas vivências, cada norma precisa ser refeita a partir dos “destroços das tradições desvalorizadas e devassadas como meras convenções carentes de justificação”. Agora, desvanecem-se as ilusões, e as regras em vigor são consideradas em duas possibilidades: de um lado, alinham-se aquelas que são reconhecidas como tais pela sociedade; de outro lado, são postas aquelas dignas de reconhecimento pelo próprio sujeito. Os fatos apresentado ajudam a intender por que o formando, que está passando pelo processo descrito por Habermas, não se preocupar com a contribuição há sociedade, e sim, somente com o lucro e bem estar próprio.

Corredor sala de aula - Bloco B - UFABC
Por tanto, é dever também da Universidade, como ferramenta da sociedade, garantir que seus alunos, a maioria saindo do estágio de adolescência, e formandos, tenham, além de uma formação profissional de qualidade, uma formação moral digna de profissionais capazes de tomar decisões em prol da sociedade que financiou seus estudos e que, assim, façam valer os recursos investidos em ensino superior pelo país.
[1] Jurgen Habermas foi durante os anos 60 um dos principais teóricos e depois crítico do movimento estudantil. É considerado um dos últimos representantes da escola de Frankfurt.
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